A REFLEXÃO DA LUZ NO GLOBO OCULAR DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS

Referência: Moraes, I.A. A reflexão da luz no globo ocular dos animais domésticos. Webvideoquest de Fisiologia Veterinária. 2016.

 

Introdução
O reflexo da luz do globo ocular dos animais , e mesmo do homem, quando incide a luminosidade de um flash de câmara fotográfica ou um farol desperta a curiosidade das pessoas. Este reflexo da luz tem variação na cor dependendo da espécie animal. E é comum observar que em humanos o reflexo normalmente é de cor avermelhada enquanto nos animais varia em tons de vermelho, amarelo, azul ou verde.
Este brilho visível é decorrente da presença ou ausência de uma estrutura membranosa denominada tapetum lucidum , ou tapete brilhante. Quando ausente o reflexo é sempre vermelho, pois é reflexo do sangue que corre no fundo do olho, quando presente reflete cores variadas (OLLIVIER e cols, 2014; BRADLEY, 2011). Esse tapetum é capaz de refletir a luz que entra nos olhos e melhorar a visão do animal em condições de baixa luminosidade.
Anatomia do globo ocular.

 

 

O tapetum lucidum
Segundo Ollivier e cols (2004) o tapetum lucidum é um sistema refletor biológico muito comum aos olhos dos vertebrados. Ele funciona normalmente para proporcionar às células sensoriais da retina uma segunda oportunidade para a estimulação dos fotorreceptores, aumentando assim a sensibilidade visual a baixos níveis de luz. Bradley (2011) o definiu como sendo uma fina camada reflexiva nos olhos de muitos animais que refletem uma cor específica quando a luz incide sobre ela.
De acordo com Ollivier e cols (2004) algumas espécies tais como primatas, esquilos, pássaros, cangurus vermelhos e porcos, não têm essa estrutura e geralmente são animais diurnos. Intrigado com os possíveis aspectos evolutivos envolvidos na presença da tapetum, Bradley (2011) resolveu analisar através da dissecção, o tapetum lucidum em olhos de ovelha e de porco, e relatou que ele está presente nos olhos das ovelhas mas não dos porcos.
Bradley (2011) observou um reflexo azul proveninete do tapetum dos olhos das ovelhas mesmo antes da retirada da córnea translúcida. Ele observou que existe uma pequena mancha escura no meio do tapetum sendo este o local do nervo óptico responsável pela informação sensorial visual que seria enviada ao cérebro para processamento. Também observou que perto deste ponto, o tapetum era muito mais brilhante, reflexivo, e branco. No olho do porco o autor relatou não exisitir qualquer reflexo ao incidir o flash. E no local que deveria estar o tapetum observou apenas os vasos sanguíneos e uma matéria cinzenta, que poderia ser vermelha se houvesse sangue fluindo através do órgão.
Segundo Ollivier e cols (2004) o tapetum lucidum representa um exemplo notável de especialização de células neurais e tecidos como uma adaptação a um ambiente de luz fraca e, apesar destas diferenças, todas as variantes do tapete agem para aumentar a sensibilidade da retina através da reflexão da luz através da camada fotorreceptora. Estas variações quanto à sua localização e estrutura, bem como a escolha do material refletor, podem representar adaptações visuais selectivas associadas ao seu comportamento de alimentação, em resposta ao uso de comprimentos de ondas específicos e quantidade de reflectância necessária.
Mas usando a pesquisa existente, podemos ter uma idéia da função real do tapetum, bem como como ele mudou ao longo do tempo.
O tapetum reflete um comprimento de onda de luz que muda dependendo da espécie e funciona normalmente com níveis de luz fracos para proporcionar às células fotossensíveis uma segunda oportunidade de estimulação foton-fotorreceptor, aumentando assim a sensibilidade visual. Ele reflete um comprimento de onda específico de luz de volta para os fotorreceptores do olho depois de um tempo em que a luz já passou, e isto permite uma maior sensibilidade à luz em condições de pouca luz (OLLIVIER e cols., 2004). Esse efeito foi relatado por Bradley (2001) quando a luz da câmera refletia fora do tapetum.
Schwab e cols (2002) mostraram que as bandas tendem a refletir os comprimentos de onda mais relevantes para o animal. Em seus estudos mostrou que o tapetum reflete o comprimento de onda da luz importante para o animal, e exemplificou que o tapetum de quase todos peixes de profundidade refletem o comprimento de onda de luz de 475 nm (ciano-verde) sendo este é o único comprimento de onda que pode chegar a essas profundidades. Bradley (2011) sugeriu que um gato ou cão pode refletir uma cor mais esverdeada para poder refletir a luz de plantas ou grama.
Uma questão levantada por Bradlley (2011) foi a razão pela qual não existe nenhum tapetum em primatas, esquilos, pássaros, canguru vermelho e porco, conforme relatou Ollivier e cols (2004). Segundo ele como são criaturas diurnas, seria possível intuir que uma vez as criaturas estando ativas durante o dia teria menos necessidade de um aumento na recepção de luz e, portanto, não teriam uma necessidade evolutiva de um tapetum. Segundo Bradley (2011) a reflexão de fundo vermelho ou laranja a cinzento pálido que é observada nessas espécies se deve a presença dos vasos sanguíneos vermelhos na parte de trás do olho iluminados pela incidência da luz.
Dado o “sortimento aleatório” dos animais com o tapetum, segundo Bradley (2011) é seguro supor que o tapetum se desenvolveu independentemente entre espécies específicas. Essa também foi a conclusão de Schwab e cols (2002) quando relataram que o tapetum poderia ter surgido independentemente em invertebrados e vertebrados já no período Devoniano (390 a 345 milhões de anos atrás)”. Eles basearam essa conclusão em evidências encontradas em outros organismos e usaram a suposição de que os vertebrados evoluiram de pikaia, um invertebrado que é antepassado de outros organismos que não têm o tapetum. Além disso,chamaram a atenção para o fato de que tanto hagfish quanto lampreias não têm um tapetum, e que eles foram separados de um peixe ancestral no período anterior ao Devoniano.
Segundo Bradley (2011) a córnea protege o olho, a íris expande-se e contrai-se para deixar entrar quantidades específicas de luz, e a retina capta a imagem e a envia ao cérebro para processamento. O tapetum é importante neste processo em que é reflete a luz de volta para os fotorreceptores da retina para uma segunda visualização. Segundo ele o tapetum é um aspecto fascinante do mundo animal e permite que as criaturas noturnas vejam melhor na escuridão.

 

O Tapetum lucidum dos cães.
Alina e cols (2009) fizeram um estudo para acompanhar a evolução do tapetum lucidum durante a vida dos cães e observaram que ele está ausente nos filhotes e que começam a se tornar visiveis por volta dos 37 dias de idade e que sofrem modificações até atingir os 90 dias quando então estabiliza. A partir de 35-37 dias os autores relataram o aparecimento de variações de roxo e amarelo com a perda da imagem dos vasos sanguíneos da zona periférica da retina.
Segundo Alina e cols. (2009) as variações de cor do tapetum lucidum foram mais intensas a partir de 65 a 70 dias do filhote, ocasião em que se observou uma cor amarela bastante extensa que incluia a papila óptica. Entre 70 e 90 dias de vida, o tapetum lucidum passou a sofrer uma grande transformação na cor, mudando o aspecto e tornando-se uma variação de lilás e malva verde para malva escuro. A partir de 90 dias, o tapetum lucidum passou a apresentar diferentes nuances de verde-amarelo, cores típicas da vida adulta. Granar e cols. (2011) também relataram as cores mais comuns da área do tapetum de animais adultos são amarelo-verde e laranja, e que as cores mais comuns da área fora do tapete são marrom escuro e negro.
Alina e cols (2009) não relataram diferenças significantes relacionadas com raça, sexo ou idade. Segundo eles no cão adulto o fundo do olho não muda, desde que o estado de saúde não seja afetado, e o tapetum lucidum mantem a cor verde e amarela e a papila óptica é evidente, com cor rosa e no centro, com diferentes nuances de vermelho nos seus limites, e a circulação visível é composta por 3 a 4 grandes vasos com ramificações para a zona periférica.
No que se refere à area fora do tapetum lucidum os estudos de Granar e cols. (2011) revelaram que o cor do pelame não influenciava significativamentea cor dessa área, mas observaram que nessa área os cães marrons apresentavam um listrado vermelho e marrom. Eles também observaram que a área nontapetal estava completamente ausente em 1,9% dos cães e que a idade não influencia na sua cor.

 

Referências Bibliográficas 
ALINA, D.; MUSTE, A.; BETEG, F.; BRICIU, R. Dynamics of the normal aspect of tapetum lucidum at dogs regarding age. Lucrari Tiiniifice Medicina Veterinara, vol. 42, n.2, p. 122-7, 2009.
BRADLEY, W. The History of Science – The Tapetum Lucidum. 2011. Disponível em <http://historyofgermanscience.blogspot.com.br/2011/04/tapetum-lucidum.html>. Acesso em 20 nov. 2016.
GRANAR, M. I.K.S.; NILSON, B.R.; HAMBERG-NYSTROM. Normal color variations of the canine ocular fundus, a retrospective study in Swedish dogs. Acta Vet Scand. V. 53, N. 1, P. 13, 2011.
OLLIVIER, F.J;, SAMUELSON, D.A; BROOKS, D.E; LEWIS, P.A; KALLBERG, M.E; KOMÁROMY, A.M. Comparative morphology of the tapetum lucidum (among selected species). Vet. Ophthalmol., v. 7, n. 1, p. 11-22, 2004.
SCHWAB, I.R.; YUEN, K.C.; BUYUKMIHCI,N.C.; BLANKENSHIP, T.N.; PAUL G FITZGERALD, P.G. Evolution of the Tapetum. Transactions of the American Ophthalmological Society, v. 100, p. 187-200, 2002.

 

Leitura Complementar 
Dynamics of the normal aspect of tapetum lucidum at dogs regarding age.
Normal color variations of the canine ocular fundus, a retrospective study in Swedish dogs
Contribuição ao exame do fundo de olho de cão normal
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